segunda-feira, fevereiro 19, 2007

PARA QUE METAFORAS?


A Alberto Caeiro

A poesia
em acorde de sinfonia
em sonhos, metaforas
nada nos fala
à tudo que importa
apenas silencia.

Só deve haver
o devido alarido
quando a verdade
da poesia
se aproximar da que
se vê na vida.

Ai, soma-se, então
um que de lirismo
uma pitada avulsa
de melancolia
e pronto, voilá:

Uma poesia realista
e altiva. Mesmo que sem
nenhum grande alarde
ainda que
para as dores do mundo
não seja a solução definitiva.

VENTO MINUANO

Se eu versejo, sobretudo,
pelo o que na terra
em lume se assenta,
é só mesmo quando
eu eu te vejo, musa e poeta,
é que, então, eu vejo tudo.

E ai, eu tento sonir o arpejo,
a prima ode, um beijo na boca
da noite, que se faz silente, silente,
quando o teu minuano venta.

E este teu vento plano,
poeta e musa, como no Mar Egeu
ao encanto das linguas mortas,
cala ainda mais o já mudo verso meu.

ATO REFLEXO

o dia
chegará
em que
o destino
imóvel
da mão
selar-se-á
na inutilidade
de um abraço.

FESTA NO CÉU


Nossos atos nos escravizam
mais do que nos libertam
pois nos fixam em um momento
um infinito de tempo, um lapso
alem da boa sorte, aquém do arrependimento.

Escravos, tambem o somos
dos desejos, a fora os atos, e estes nos torturam
e matam, como os militares
de sessenta e quatro
torturaram e mataram jovens idealistas
assim, sem nenhuma emoção.

Nossos amores são promessas vãs
de permanecia eterna, pois o mais
perto que chegamos, é de lançar olhares lânguidos
algo tristes, por sobre os muros da humana contenção.

Devolvamos nossas almas à liberdade do eterno plano.
Quiçá seremos, afinal, felizes
observando-as à voar
levando nossos sentimentos encarnados
em passaros exóticos, tuiuius, fenix, urubús
tucanos e jaburus (sim, os belos jaburús)
pois só passaros tão grandes podem arrastar nosso éter
flamas dilatadas de amar e de sofrer
até a alegria da grande Festa no Céu.

CONTRAPONTOS

o amor são os contrapontos
os inversos os signos trocados
ausente/presente que só se resolvem
nos interditos nos interditados
e nas permissividades
no alento e na contenção/explosão
no vôo da grou na queda no tempo
o tempo dilatado de um suspiro
é a eternidade!
O amor como um ente para contar-se
entre a plausibilidade da cópula
como uma condição prosaica
farsesca e a existência insistente
da poesia como língua atonal própria
aos amantes deve saber que amar
não é dimensão naturalista
é a magia a falta de fôlego enfisema pulmonar
provocado pelos suspiros de espera desta espera
inquieta incontida um pico na veia
pra fazer correr moléculas de uma alegre insânia

LINGUISTICA


A poesia é proverbial
e de grande serventia
por explicar a afeição
dotar de asas a rebeldia
aquilatar o que se vê
dar valor ao que se cria.

O amor só se entende
longe da monotonia
e o poeta tem por oficio
recolher a tais emoções
tanto que, dos confins
da terra, vai ao céu
atrás de musas quietas
em busca da parceria
das airadas Marias
sejam elas mulheres belas
sejam as feias, ou as etéreas
e, ainda, aquela tão linda
que, por augusta, passeia
num mafuá de província
em roda, no carrossel.

A mulher, por mais triste
mirrada ou pequena
é musa, e tem o seu vate
que a proclama em poema.

Ele, andarilho, vem da região
do encanto, verter-lhe o sumo
da vida, trazendo o amor por dístico.

É por isto que a poesia, em tudo que fala
amplia, faz de um simples beijo, um verso
algo muito mais do que corpo, do que sexo
do que lânguido, algo
por assim dizer - lingüístico.

SONETO DA SOLIDÃO NOTURNA

Se de um pé após o outro, em sucedâneo
Indago à que lonjuras me levam, noite escura
Passos hesitantes, infante cruzando linhas
Que do Atlântico seguem ao Mediterrâneo.

No roteiro desta servidão em que navego
Em que porto? Qual chegada a que se alcança?
Suster a infinitésima partícula de esperança
De que se aproxima o fim, interminável desterro.

Em desapego, inseguro e assim sozinho
Sem Vivaldi a socorre-me entre as Estações
Sequer viv´alma soando música no caminho.

Na derrota deste meu desiderato, seguiria em frente
Na insone noite, não deixar-me-ia vagar soturno
O amor viesse, desabrido, resgatar-me coração, corpo e mente.

TEMPOS DE CÓLICA


Caminhante neste tempo ocioso
olhar fixado, devoção demente
eterno tempo à se perder no firmamento
irrenovado, mais que sempre, recorrente.

Cruzando sendas, então, estreito os passos
em calçadas de antanho, já traçadas
à simular pistas novas, ilusões de veracidade
forças vitais de um amor, de certo, ocluso.

Inescrutável ardor, inútil/fútil vaidade
condenação virgiliana ao inferno tenebroso
de um desencontro de todo inexplicável.

Longas calçadas com furinhos no cimento
cobertas de inservíveis frutos diminutos.

Levam para onde ?

Para o nada, ali, mais adiante
nesta cidade de horizonte enganador.

Para onde me levam estes meus passos dúbios?
Passos miúdos, de meu filho, para onde?
Para onde o cavalinho de brinquedo
e a esperança imotivada de criança?

Amor e tristeza são presenças pressentidas
na letargia magnífica deste fracasso insuportavel.
Como explicar, mais que entender, perdidos passos?
E este nunca entronizado em nossas vidas?

Mas, como dói, como dói, esta cólica incurável.

AMARGO AGRADO

Não se pode ter de tudo
toda paisagem que se veja
todo agrado, toda partida de seda.

Não se compra carinho
em balcão de armarinho.

Nem todo peixe vem
no retorno da rede.

A noite nem sempre
vai recobrir um dia feliz.

Não se pode ser feliz
alem da pouca parcela
que nos é dado à conhecer
em nossa quadra de vida
devida.

A vida inebria vicia e mata
mas, mata ainda mais
o medo da vida perder
o medo da morte das coisas
é o que nos evita o viver.

São tantos os amargos engodos
tragados com desdouro
com açúcar e spirulina
junto ao fel do entardecer.

AMIZADE VERDADEIRA


Fazer amigos não é fácil
como pensas.

Não é como fazer chover
sonhos e retalhos de prata
numa cama de seda egípcia
que tu dividirias com a Nicolle Kidmam.

Não é mesmo assim tão fácil
quanto conseguir-se um amor profundo
imune às duvidas e ao corroer dos dias ruins.

Fazer amigos, de fato, não é fácil
como se pode pensar.

Portanto, mesmo aquele
teu amigo da onça
trate-o de conservar.

A FABULA DO SOL E DA LUA


O sol mudou o curso do rio,
iluminou o umbral,
vestiu-a de Kilimanjaro,
noite, sidra e marfins,
aos pés da lua depôs.

Sem dar por contas, ela dizia:
“Por mim, qualquer cousa seria”.

E por amar a lua tanto assim,
verteu-lhe para o latim,
uns mil poemas de amor.

Deu-lhe a pedra de toque,
se esponjou na salmoura,
colheu no jardim saduceu,
dentre todas, a mais bela rosa.

E, ainda assim, lhe falou a lua:
“Não cuides por mim.
À mim, compraz-me
qualquer cousa”.

Quando ficava, então,
mortiço, é que a lua aparecia.

Quando sem luz e mofino,
fêmea, ela resplandecia.

E só depois de dançar
qual ninfa no ceo,
em tal rito de alegria,
ao ouvido do sol triste,
a lua suave, dizia:
“Senhor sol, meu, tão querido.
Mal não lhe fará, entender
o que lhe digo.
Não me faltarão riquezas,
amores e nem honrarias,
porquanto minha é a dádiva
de banhar de nívea prata,
sobre o mundo, à qualquer cousa”.

MELHOR SERIA

Eu não te quis, quando viestes.
Não te prometi o Everest.
E nem mesmo, eu devolvi um amor
Que era tão lato de alegria.

Tive, de amor, o medo
E daquilo que eu sentiria
Se a ti, me fosse entregar.

Daquele amor que me tomava
A cada momento em que eu te via.

Hoje, se a tua ausência
Já não mais me aduzisse a aflição
Creio que poderíamos
Ser assim, mais verdadeiros.

Se, um dia que fosse
Tivesse me visitado a virtude
Da amorosa franqueza
O bom seria ter-lhe dito
Que sem você, invadir-me-ia
O desespero, e que
De fato, viria a tristeza
A me tomar por inteiro.

URBI ET ORBI


Pássaros urbanos em revoada
nas ruas do centro, ainda tão cheias do sol
mas, já proximo da noite
num dia de semana normal.

Vou caminhando de mocassins
sobre as pedras largas, na calçada
da Praça Quinze, depois de sair de
uma exposição sobre
o Niemeyer, no Paço Imperial.

Meus olhos que ardem
estão plenos de sólidas curvas
femininas, que pulam (as curvas)
da arquitetura, para o delineio
dos corpos, na perfeita vantagem
de, sob os vestidos, rodearem os seios
ou no mourejado balanço dos quadrís
das mulheres à minha frente.

Mas enfim, o Rio vai fervilhando
desta gente laboriosa nas calçadas
apesar do sol caliente
e eu, aqui, poeta diletante
só pensando em sacanagem.

Minha cidade me absolve
e por certo, me entende sim
e, quiça, o Brasil também
que ali na multidão multicor
já saúda-me, sorrindo
tão displicentemente
que vai renovando-se
o lirismo, que se
envergonhara de mim.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

SOB A LUZ DA LUA FRIA


Combinam-se os elementos
na alquimia de um amor sem igual
e que se faz intenso e pleno
sob a luz da lua fria
como a essência de um perfume
liga primordial.
O fogo da luz fria, vai crepitando
derramando-se, como semem
pelas ancas abissais, falésias
precipitação no ar em vôos
ascenssores pelos litorais.
A musica atonal que a todos
enleva, exercícios de sedução.
O filtro do amor que lança
os entes, ao desespero do sexo
em um torpor dolente.
Os frutos deste amor
porque só aromas, ninguém
os come, e se não são do mar
ou da terra, ficam caídos
pelos cantos na areia seca
do deserto, ao alcance
da sede e da fome.
E são aquosos, já mordidos
liquefeitos como os rios
que levam as almas
à promissão, à explosão
de paixão e de cardumes.
Os peixes jogam o claro/escuro.
Sereias margeiam mentes, e são
as fantasias de um romance épico
que é mais que a vida, que é mais
que o mar eterna calma em propulsão.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

ILUSIONISMO

Tantos caminhos são artifícios
para uma impossível chegada
que vale palmilhar a lembrança
rota de fuga pelo cimo dos edifícios
um caminhar pretérito, viver nos ofícios
de um pretenso saber de mistérios.

Para a arte do escapismo
não caberão latitudes
que não sejam as marcadas no peito
na pele profanada e rude, tatuagens
cicatrizes da boçalidade e as beatitudes
beijos e, talvez, o disfarce, talvez, o absinto.

Não sei mais dizer o que sinto.
Prestigitador. Sumir no vapor da tabacaria
num sortilégio brilhante, nas baforadas, nos rolos
de fumaça, na avenida febril, inebriante
plena selva de faces tortas. Sou infeliz e minto.

Na buzina, o trinado do pássaro metálico, mutante.
Eu devia a ti, um mergulho na vida, na relva
na memória das trevas, no passado de chumbo
o presente irrelevante, irrevelado.

Não é só pelas plumas leves
escuras ou claras, que se conhece um pássaro.
Sabe-o no voar, e também, pelo trinado.
E a vida, se vai raptando a sorte
na esperança de distrair a morte.

NINFA EM SONO NA RELVA

A Anelise Tupinambá

Dedico-me a observá-la
Em seu plácido enlevo de sono
Cuidado em madrigal levedura.

Seu corpo entregue, lânguido
Em negra gaze, envolvida
E, como na relva, disposta
Uma éterea dama, de serena ventura.
De tez tão clara, e, ainda mais
Assim, adormecida.

Vê-la entregue à navegação
Dos sonhos, é vislumbrar
Num só instante mágico
No agora, o que, por meu desejo
Houvera sido, ausente as neves
Da nossa mutua incongruência.

Destarte, mesmo o acaso
De alguns suaves e ternos beijos
Longe das luzes de qualquer ciência
Vê-la assim menina bela
Como boneca de louça
Entregue ao seu próprio levitar
Nem mínima ruga na fronte alva
Que lhe turve o sono fundo
Devolve-me a crença e a plenitude d´alma
Sem que Deus nenhum me ouça
E, faz-me ledo entender o porquê
Simulo tanto, o porquê de tanto medo
E porque tanto, que a mim, eu minto
E de pronto, porque tanto te amo
Ao observá-la, velando
O seu doce adormecer
E, em que pese o que mais sinto
Ninfa tormentosa do oceano
Creio que passo a compreender
O desencanto à que tornamos.

UNIVERSO OCULTO

Teu beijo escasso
mostava os dentes
enquanto teu verso curto
deixava entrever estrelinhas
nas entrelinhas.

domingo, janeiro 14, 2007

AO SUL DA POESIA


A Claudia Gonçalves

Sonhei, com um virtual encontro, onde vía-te sobre o Guaíba,
flanando, melenas soltas em livre augúrio,
e a lira, pronta à qualquer encanto.

Eu te seguia, poeta-musa, desde o Rio de Janeiro.
Deixei-me também ir ao vento, que alisa a serra e as vargens,
e ao litoral, que não há como cá.
Estas já foram às terras da grande nação Tupinambá,
outrora, antes de Rousseau e de seu mito do bon-sauvage.

No delírio, ao vento leve, Heracles, eu ia ao teu encalço,
como no resgate de Alceste,
e do Hades, planura primordial eu fazia,
com muitas luzes e flores,
contextura, que a tempo breve, acenderia
o sopro eterno da poesia.

No sonho, emergia pelas colunas de mormaço,
que envolvem à meus pares, nestes tempos quentes.
Quando tais ousadias, aos estratos alçaram-me,
por sobre a imensidão dos mares, por sobre todas as gentes,
olhei para o mapa da terra, de onde nunca se viu,
e fui bordejando à bubuia na autopista celeste,
cortejando em adejo o celeste azul, pela costa do Brasil.

É, poeta-musa, eu te seguia. Rudimentos mágicos da natureza,
eu a via combinar num instante em teus belos poemas.
Irmanada, pois, aos pássaros, no caminho sobre as ilhas,
num amavel voar constante, buscava o Alegre Porto,
indo às terras Farroupilhas.

Entoavas místicas cantigas, e tantas,
que eu diria que, doces quebrantos.

Juntos, iamos em galope jovial e presto.
Em parelha no céu,os eólicos ginetes:
O meu, sudoeste médio,junto ao seu,
minuano dos pampas.

Os ares, como a poesia, varejam a alma dos povos,
e os sonhos, tudo nos permitem,
estas quimeras gigantes.

E foi assim. Os ventos, campeando gautério a liberdade,
pela gauchesca praia, ou pelas aldeias Carijós,
que havia no entorno da Lagoa dos Patos.
Se pudessem o sonho e o poema vencer aos fatos,
ali, aqueles elementos, já teriam anunciado,
à quem escutar se dispusesse, a emergência de um tempo novo.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

POEMAS ETERNOS AO VENTO


À Neftalí Ricardo Reyes Basualto (Pablo Neruda).

Os ares madrigais que varejam o atlântico, dizem, poeta,
de seus disseminados ventos, andinos, cegos, ressonantes,
ventos que percorrem prados altos, plantações de trigo,
e balançam os longos cabelos das moças índias.
Há tempos que tais ventos vagueam por liberdade, esta musa,
que, perseguida pelos infames, e almejada pelos poetas,
vive no anseio que não se finda, dos povos do americano continente.

Procuro-te, poeta, pelos charcos clandestinos, pela pátria esquecida, pelos rios, veias rubras d´aurora. Sobre igarapés, voam colibris e maritacas, buscando o néctar e os grãos.
Os visionários, seguem em direção ao poente.

Faz-nos falta o poeta da fome e da chuva, o poeta dos estios,
da crepuscular dinamite, o pavio, o poeta das visagens telúricas da noite, alpinista dos altiplanos de versos solares e sombrios.
Saciedade é a palavra que te revela no alimentado sentimento hermano. Vida que cantastes em odes cheias, à labuta nas minas de cobre, estanho e carvão, cantastes na canção do sal, nunca hermético ao sentir dos injustiçados. Teu poema argila modelando a vida, processando no desejo da luta líquida e contínua, é servido em arpejos de anjos, para a consumição existencial.

Diz-me, poeta de Antofogasta e de Parral: Que diz a tua meia-noite profunda? Tenho chorado, tenho chorado! Teu povo americano,
já é hora, quer de novo canta-lo numa ária, como pluma atonal,
um canto que enseja o poder de alcançar-te nas plagas do ateu firmamento em que habitas o teu poema eterno.

Levar-te em passeio, do Chile às Minas Gerais, em visita a outro poeta,
de outra tragicidade e de alma mineral como a tua, plena de ferro e nuvem. Retirar-te, um pouco, de tua navegação no sombrio pacifico
de águas frias e perigosas, onde velejas como gostas, guardião de fronteiras do Ethos latinamericano em formação.

Teu barco, teu verso de serenas sedas enfunadas, nos mares canônicos
da beleza ocidental. Odisseu redivivo da esperança, deves ver de novo
os grandes condores do sul continente, aos pés da Patagonia. Estes pássaros estão descendo as paredes de montanhas de tua pátria, para selar o teu testamento de amor.

Escrevestes na consciência do tempo tuas odes, promessas de
um arrebol sem vilipendio. Ecoam hoje sobre as nuvens das sensibilidades, no farfalhar da feira de Valparaiso, na Europa Setentrional, e, também aqui no Brasil, de onde te revisito em poesia
e pensamento. Há um canto novo que todos os que quis ver irmanados, cantarão a uma só voz, toda a vida, na mesma elegia.

E devemos cantar o poeta, antes mesmo que a poesia. Vejo os ativos obreiros na zona industrial. Vem e vão à construção de casas ricas, subindo paredes nuas. Crianças correndo à sorrelfa, as mulheres livres
e as moças pudicas fervilhando pelas ruas.
Pergunto a ti, poeta: Desde quando se descobriu amando assim a teu povo? Onde mais é que se viu um amor assim, tão probo?
Um amor profundo, Isla Negra. Aquele que te esqueceu, agora te reconhece no cimo dos edifícios, cordilheiras urbanas, no lácio,
nas oficinas. Teu nome é cantado nas publicas ágoras de maio,
por gerações operarias no mundo inteiro.

Mas, nós só pudemos cantá-lo hoje, pois o Chile tricolor, mereceu o nosso esquecimento, a fuga das consciências relevantes, e esteve entregue a uma elite vil e conservadora. Morreu o Chile da Unidade Popular, quando mataram a tua presença e juventude, quando se calou
à Violeta Parra e a lira maiakoviskiana fluiu a sua toda essência,
na dor de teu povo dizimado. Morreste, tu, poeta, para ficardes etéreo
e vigilante, como a um andino vento.

Um dia, há poucos anos, a TV mostrou-nos juizes ingleses dando motivos, desde o centro do império, para crer na justiça:
O monstro do Chile perde as suas imunidades! E antes que as recuperasse, por artes da política, em nome da “normalidade democrática”, rimos, gozamos, e nosso maior regozijo, foi ver as mães ofendidas no ventre, no grito calado e no olhar triste, roubadas nas noites insones, sorrirem, sorrirem, em um muito franco sentir de alegria.

Agora, nos dizem os jornais: O maléfico verdugo chega aos seus estertores! Morra logo, tal verme, e leve sua semente para um solo calcinado, para que não corramos o risco de que lhe fique lembrança.

Desce aos infernos, carrasco! As humilhações do inglês desterro, em nada se comparam com a orfandade promovida, crianças ensurdecidas de medo, para as quais o Lacaio dos Ianques, destampou a Caixa de Pandora, obrigando-as a que ouvissem os lancinantes gritos dos pais, cantantes da humana ventura chilena.

Tomemos um vinho do Valle Central, poeta, pois a dor que durou decênios, anuncia que a nossa fraqueza não é mais do que força e virtude. Não durou, o morto-vivo, mais que tu, que perduras eternamente, poesia, mais que poeta.

Sepultemos estes tempos no eterno esquecimento, a mais humana das soluções. Nossa flama pequenina, vai agora florescer. Vem, poeta Neruda, venha ver! Acorde também a Allende, para ver o renascimento de seu amado Chile, derramando pelas cordilheiras quedas de lirismo (aonde antes só dor e desesperança), águas que vão, no coração do pacifico, encontrar com os ventos nobres de Frida Khallo, que
vem vindo, que vem vindo,desde o Valle do Yucatan, de onde
a voz da liberdade ainda nos pode alcançar.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

AS PALAVRAS AO VENTO

No artifício da poesia, a duvida
invadiu-me o pensamento:
O que são as Palavras?
Eu inquiri o Tempo, sem alarde.

Foi o Vento que mo respondeu,
sibilante e frio:
“As palavras são difusas, porque nem sempre
são claras, são furtivas como assombração.
Eu só sei que as levo pelo ar. E como arde!”.

Por não satisfeito, continuei a perguntar:
E porque se formam as frases poeticas?
Desta vez me veio a Tarde,
dizer que: “Por vezes, se vão formar
de pedras vaporosas e raras, nobres
segredos, com fulgor de revelação.
Amiúde, são seixos pobres, são apenas
falas, sem nada importante para revelar”.

A Musa, que é moça prendada, e já, a tanto,
acostumada nas artes do versejar, saída d’um canto
de sua alcova, costurava, e assim falou-me:
“Acho que são pedras/caladas (as palavras),
atiradas por um menino, e que, zunindo
sobre o lago, duas, três, até quatro vezes,
vão formando conceitos, que, inservíveis
no explicar, logo se afundam, desistentes”.
Assim dizendo, a Musa tornou ao leito.

De um lado, o Guardador de Rebanhos
pessoano, em seguida, passando rente,
com seu jeito camponês de olhar sempre
o passado, como se olhasse para sempre:
“O sentido que as palavras trazem, se
escondem no oco das nuvens que passam,
e a poesia, então por isso, não se pode explicar.
São mesmo inapreensíveis as palavras envoltas
nestas nuvens moveis, no céu, tão airosas.
Não são como verdades dispostas sobre
o lajedo da memória. São etéreos, mesmo, os
versos eternos, irretocáveis, e as mais belas prosas”.

Disse-me o Mineiro, com suas mãos maceradas
de revelar as riquezas do chão:
“O oficio do poeta, lembra-me do meu eito
de encontrar a pedra certa. Certas palavras,
escolhas, são como brilhantes. A pedra se esconde
nas entranhas, e, depois de desencavada, põe-se
à serventia de mulheres lenientes, para quem
o amor deve produzir tais provas. E não só
palavras são tais pedras, mas, também os afetos
bateados no intimo, em prenhes lavras novas”.

Na convenção sobre a poesia, que convoquei onisciente,
uma voz inda faltava, a do hirto Pescador silente:
“Vejo-as como, quando na praia, voltando o arrastão,
juntando o esforço e a dor, crianças à flor d'areia,
desenham palavras e peixes. A cena se parece
a um vivido jogo de armar. Entendo que é poesia.
No remanso do poente, há os que não resistem
ao ninar praieiro do mar”.

Mas, “Em verdade vos digo”, vociferou a Voz Divina,
em tom de justa sentença:
“As palavras não fazem o sentido que lhes quer
dar a humana e vernácular ciência.
As que são recitadas nas rezas, as dispostas num
mosaico bizantino, no adro e nas paredes das
altíssimas igrejas, ou as que estão a voar no cantochão
dos hinos piedosos, no entardecer da alma,
aquele lamento continuo, ao repicar dos sinos,
talvez me as faça escutar”.

Ao longe, ao caminhar agora mudo,
pude então, em minha idéia, pensar nas falas
dos que me habitam os poemas, eterno retorno ausente.
As palavras, as poesias (também, o olhar), são mesmo
pouco para redimir e para sonegar a tristeza, tantos ais,
e o que a morte me impõe da matéria solidão.

Na mente em vigília sem fim, a repetição das palavras
dos referidos entes, e das que me vem do passado
e do inconsciente, para construir no tempo recente,
o tardio eco da indefinição.